Seguir perfis 'fitness' nas redes sociais interfere na minha alimentação e no meu exercício físico?

20/09/2018

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As redes sociais exercem um papel importante na disseminação de padrões de beleza. Podemos ver no Instagram vários perfis fitness que divulgam fotos de corpos “malhados”, dicas de alimentação, exercício físico e suplementação. Esses perfis exaltam o corpo magro e musculoso disseminando a ideia de que para alcançá-lo é necessário apenas ter “foco, força e fé”.

 

Na minha jornada profissional, trabalhei por dez anos como professora de educação física em academia, nos setores de musculação, ginástica e avaliação física. Durante esses anos, escutei vários relatos de alunos sobre vários assuntos, inclusive sobre corpo e comida.

Na sala de avaliação física, muitos já demonstravam insatisfação com a imagem corporal e sempre tinham algum modelo de corpo ideal para atingir. Muitos deles, a maioria mulheres, desejavam alcançar um corpo semelhante ao de alguma blogueira fitness. Relatos como: “Quero um corpo definido, uma barriga trincada e a perna igual dessa blogueira” eram comuns na minha rotina de trabalho.

 

De fato, como coloca Silva et al. (2018), a disseminação generalizada do ideal magro como belo, proporciona uma relação disfuncional com o corpo, pois, a exposição frequente a imagens de corpos “perfeitos” nas redes sociais, reforça a ideia de que esse corpo é uma versão da realidade, e não alcançá-lo leva a uma autoimagem corporal negativa. Isso gera grande sofrimento psíquico, podendo levar à baixa autoestima, insegurança, culpa, frustração, ansiedade, depressão e até ideações suicidas.

 

Além disso, dentro desse público que reforça o padrão de beleza contemporâneo, infelizmente, encontramos também muitos nutricionistas e profissionais de educação física. Esses que têm como principal objetivo a promoção de saúde, sendo saúde, no seu conceito ampliado, definida como bem-estar físico, mental e social, como pontua a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1946), mas que acabam contribuindo para essa ideia de corpo perfeito e ideal.

 

 

 

Isso tem afetado a prática de exercício físico. Frequentemente escutava de muitos alunos: “Este final de semana comi muito, vou fazer mais exercício para compensar”, o qual vai ao encontro das considerações de Teixeira et al. (2015) que afirmam que é muito comum encontrar pessoas nas academias praticando diversas modalidades que não proporcionam nenhum prazer ou bem-estar, se exercitando apenas por se sentirem culpadas, obrigadas a queimar calorias e compensar a ingestão de alimentos que são rotulados como “proibidos”.

 

Além disso, também sempre escutava frases como esta: “Faz tantos anos que treino e as pessoas comentam que meu corpo não mudou”. Esse comentário deixa clara a preocupação do aluno apenas com os fins estéticos do exercício físico, a qual acaba sendo a motivação que leva a maioria a buscar determinado tipo de atividade.

 

Assim, esse pensamento contemporâneo que cultua o corpo esbelto e definido, a ditadura da magreza e o preconceito contra os que não “seguem” os padrões de beleza tem influenciado as pessoas a buscarem o exercício de forma pouco saudável (TEIXEIRA et al., 2015), tornando-o algo com uma conotação negativa, como uma obrigação, penitência e, ou algo desprazeroso.

 

Como profissionais da área da saúde, precisamos ter conhecimento dessa realidade para ajudar nosso paciente a desenvolver senso crítico em relação ao exercício físico. O incentivo à prática do exercício intuitivo, conceito que promove a prática de atividade física respeitando os limites do corpo, buscando prazer como primeiro objetivo e tendo atenção plena para voltada para a atividade que seu corpo está desenvolvendo, pode ser uma opção muito benéfica e equilibrada para conquistar bem-estar e qualidade de vida (GENTA, 2018).

 

Não é só a prática de exercício físico que acaba sendo afetada pela busca do corpo “ideal”. Alterações e disfunções no comportamento alimentar também são frequentes em busca desse objetivo. Por exemplo, também já escutei com frequência dos meus alunos na academia: “Qual alimento ou suplemento posso usar para ajudar a queimar gordura mais rápido?”; “O que posso comer para ganhar mais massa muscular?”; e “Qual alimento é bom para secar a barriga?”.

 

Percebe-se nesses comentários que as escolhas alimentares são baseadas em alimentos que têm alguma finalidade estética, o que vai ao encontro da afirmação de Silva et al. (2018), que coloca que os alimentos passam a ser vistos sob o prisma de um “meio” para construção do corpo perfeito, como se possuíssem elementos mágicos.

 

Ou seja, o desejo de transformação do corpo ressoa na relação dos indivíduos com a comida, e a alimentação passa a ser vista como forma de construção do corpo desejado, destacando-se de seu contexto social, cultural, afetivo e simbólico. Isso transforma o ato de comer, antes fonte de prazer repleto de significados, em algo que gera angústia, arrependimento, culpa e julgamento. Essa relação com a alimentação pode atuar como gatilho para o engajamento em dietas restritivas e em comportamentos alimentares desordenados (SILVA et al., 2018).

 

Nesse cenário atual, percebe-se que os perfis fitness podem promover uma relação disfuncional com o corpo, a comida e o exercício físico.. Como educadora física e nutricionista, considero ser importante levantarmos algumas reflexões para os nossos pacientes, com intuito de promovermos uma autoanálise sobre a influência das redes sociais no seu comportamento alimentar: Quais são os perfis que vocês seguem nas redes sociais? Eles despertam quais sentimentos? Esses sentimentos são confortáveis ou desconfortáveis? Se for desconfortável é possível deixar de segui-los?

 

Referências:

Grupo especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares. Beleza e Atividade Física, São Paulo. Disponível em: <http://www.genta.com.br/beleza_ e _atividade_ fisica>. Acesso em 25 de agosto de 2018.

 

Organização Mundial da Saúde. Disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/OMS-Organiza%C3%A7%C3%A3o-Mundial-da-Sa%C3%BAde/constituicao-da-organizacao-mundial-da-saude-omswho.html>. Acesso em 25 de agosto de 2018.

 

SILVA, A. F. S.; NEVES, L. S.; JAPUR, C. C.; PENAFORTE, T. R.; PENAFORTE, F. R. Construção Imagético-discursiva da beleza corporal em mídias sociais: repercussões na percepção sobre o corpo e o comer dos seguidores. Demetra: alimentação, nutrição & saúde. v. 13, n 2, p. 395-411, 2018.

 

TEIXEIRA P. C.; FONTANA M.; POCALOW. O.; TIMERMAN F.; ALVARENGA M. Nutrição Comportamental e atividade física. In: ALVARENGA M.;  ANTONACCIO, C.; TIMERMAN, F.; FIGUEIREDO M. (Orgs.), Nutrição Comportamental. Barueri: Manole, 2015. p. 465-484.

 

 

 

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