“Quero emagrecer, mas é por saúde”

28/06/2018

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“Quero emagrecer, mas é por questão de saúde”. Não consigo mensurar quantas vezes já escutei essa frase dentro do consultório. E a dor que o não alcance do emagrecimento traz, e o peso que o peso tem tido na vida destas pessoas, me fazem refletir: será que é por saúde mesmo? Apesar de vivermos um grande terrorismo associando o ganho de peso ao desenvolvimento de doenças, o cenário atual que tenho visto me faz refletir quais realmente são as motivações para nossa tão angustiante e incessante busca pela perda de peso.

 

 

Deixe-me compartilhar algumas informações interessantes com você:

 

Há algumas semanas, uma moça comentou comigo que sentia inveja da sua amiga diagnosticada com Diabetes Mellito tipo 1, pois ela podia comer de tudo e era só não tomar a insulina que ela não engordava. Esse comentário me assustou. Talvez você não saiba, mas a Diabetes é uma doença grave, incurável, caracterizada por uma secreção insuficiente de insulina, o que prejudica a absorção e metabolismo de glicose (açúcar). Assim, esses pacientes precisam fazer uso de insulina externa para que seu organismo metabolize sua alimentação corretamente, e possam se nutrir. Quando os pacientes não fazem o uso adequado da insulina, o açúcar na corrente sanguínea não é absorvido corretamente, e esse excesso de açúcar circulante pode trazer uma série de riscos como problemas de visão, de circulação, em vários órgãos e até mesmo ter consequências fatais.

 

É perceptível que desejar ter uma doença dessas para poder não absorver os nutrientes e não engordar está longe de ser algo saudável. Inclusive, a Sociedade Brasileira de Diabetes traz um estudo demonstrando uma prevalência da omissão intencional do uso de insulina para perder peso de 34% a 40% das mulheres diagnosticadas com DM1 entre 16 e 30 anos. O quão assustadora é essa informação? Isso significa que estas mulheres não permitem que suas células recebam a nutrição adequada, e, ainda, que seu sangue mantenha níveis alarmantes de açúcar, pondo sua saúde em grave risco. O risco de cegueira, problemas circulatórios e até mesmo morte é bastante preocupante.

 

Outro dado que considerei extremamente alarmante é o não seguimento do tratamento por pacientes com fibrose cística em busca do emagrecimento. A fibrose cística é uma condição genética que faz com que as secreções produzidas pelo indivíduo sejam mais espessas e mucosas do que nos indivíduos que não possuem essa condição, e isso traz muitas manifestações clínicas, incluindo problemas respiratórios e digestórios, que, inclusive, diminuem consideravelmente a expectativa de vida do indivíduo. Felizmente, esta expectativa de vida pode ser aumentada quando uma boa nutrição e o tratamento adequado e cuidadoso - o qual exige bastante dedicação! - são aliados. Porém, segundo Gilchrist e Lenney (2008), o desenvolvimento de transtorno alimentar nestes pacientes tem sido uma realidade significante, e a omissão do tratamento adequado para emagrecer tem trazido consequências até fatais na vida destes indivíduos.

 

De fato, apesar de não termos números exatos no Brasil, pois são doenças em geral silenciosas e pouco relatadas, é possível ver que os transtornos alimentares têm tido um crescimento acentuado. Se você parar para pensar, é bem provável que você tenha um amigo, ou um conhecido, ou já ouviu falar de alguém, que já sofreu ou sofre com algum TA, não é mesmo? Em 2013, a NEDA (National Eating Disorders Association) lançou uma campanha de conscientização que tinha como slogan: "Todo mundo conhece alguém com transtorno alimentar", trazendo essa conscientização de que todos nós conhecemos alguém ou já ouvimos falar de alguém que possui ou possuiu um transtorno alimentar, demonstrando assim como estas doenças estão crescendo assustadoramente ao nosso redor. Transtornos alimentares são doenças psiquiátricas nas quais a ingestão insuficiente de comida, bem como os comportamentos disfuncionais em relação à comida, colocam a vida do indivíduo em risco nessa busca incessante pela perda de peso. A anorexia nervosa, inclusive, é o transtorno psiquiátrico que mais mata (e há alguns meses, uma moça comentou comigo que queria ser capaz de ter anorexia nervosa para conseguir não comer).

 

E nós, população saudável, também não temos feito isso? Também não temos colocado nossa vida em risco em busca do emagrecimento? Quantos medicamentos perigosos temos usado? O quanto temos nos feito passar fome? Quantas dietas da moda temos feitos? Quantos procedimentos estéticos sem certificação temos nos submetido?

 

E eu sempre me pergunto: será que se as dietas não tivesse o efeito rebote do efeito sanfona e das compulsões alimentares (sim, eles estão nos protegendo! veja aqui), não teríamos todos a capacidade de nos desnutrir até a morte (que é o que, de fato, ocorre em alguns transtornos alimentares)?

 

E, então, eu me pergunto novamente: será mesmo que queremos emagrecer por saúde? Ou será que estamos tentando nos ajustar a um padrão de beleza, que dita que ao termos o corpo perfeito seremos mais aceitos, felizes, bonitos e realizados? Não estou julgando ninguém, pois a pressão dos padrões de beleza é realmente muito cruel. Mas olhe sinceramente para dentro de você e se pergunte: por que eu quero emagrecer? Será que realmente meu maior objetivo é saúde?

 

Por isso que, acredito que é hora de começarmos a olhar para um real e importante problema de saúde pública que estamos enfrentado: a insatisfação corporal. Estamos tão insatisfeitos com nossos corpos que estamos adoecendo! E isso tem acabado com a nossa saúde mental e também a física! E, como vimos nos exemplos acima, também tem acabado com nossas vidas.

 

Referências:

 

  • Gilchrist F, Lenney W. Distorted body image and anorexia complicating cystic fibrosis in an adolescent, Journal of Cystic Fibrosis, 7(5), 2008.

  • Sociedade Brasileira de Diabetes (http://www.diabetes.org.br/publico/dia-mundial-de-alerta-para-os-transtornos-alimentares/1296-diabetes-tipo-1-e-transtornos-alimentares-dra-claudia-pieper)

  • National Eating Disorders Association (www.nationaleatingdisorders.org)\

 

 

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