A gestação e o não reconhecimento do corpo

14/05/2018

Escrito por

 

 

* Um relato pessoal da nutricionista Nathália Petry

 

Constantemente, ao atender mães em meu consultório, me deparo com a angústia de querer “voltar ao seu corpo”. E, mais do que nunca, eu entendo o que vocês querem dizer, e por isso vim aqui compartilhar algumas reflexões que tenho tido na gestação.

 

Hoje alguém me deu feliz dia das mães, e aquilo pareceu ainda fora de lugar. Não me sinto ainda mãe, embora eu já seja. Não sei quando a gente sente isso, mas que não me sinto mais dona de mim, ah, isso eu já sinto. O simples fato de ter uma dor de cabeça e não poder tomar um remédio me mostra que não sou mais totalmente dona desse corpo. O fato de acordar e perceber que a calça não fecha mais me mostra que o corpo agora é casa também de outra pessoa. O fato de marcas surgirem no meu corpo me mostra que meu corpo já não conta mais só a minha história.

 

Devido ao transtorno alimentar, meu corpo já mudou muito, mas nada se assemelha ao processo de gestar. As mudanças são velozes, diárias, e não são só suas. Seu corpo não é mais seu. Pertencem também a outra pessoa. E a verdade é que você nunca mais será a mesma.

 

A mídia é cruel e divulga dezenas de notícias de mulheres que pariram e logo depois “voltaram ao corpo de antes”. Segundo o estudo de Meireles et al (2015A), a insatisfação corporal de gestantes foi aumentando conforme foram ganhando o peso da gestação, refletindo como esse se torna um período conflituoso para a mulher, em que por um lado se conforta em saber que o bebê está crescendo, porém por outro lado se preocupa em "estar cada vez mais longe do padrão de beleza". 

 

Mas, sinceramente, a verdade é que você nunca mais “volta” ao corpo de antes. Porque não tem pra onde voltar, agora é só pra frente. Porque você não é mais a mesma, e seu corpo não é mais o mesmo. Estamos em um lugar diferente agora. Seu corpo gerou uma criança, e talvez até a alimentou. Como esperar que ele volte a ser o que é antes?

 

Não estou querendo dizer que seu corpo não vai necessariamente se modificar novamente, que os kgs extras nunca mais serão perdidos. Mas quero dizer que é cruel submeter as mulheres, que acabaram de fazer algo maravilhoso, a uma pressão tão cruel de terem que “voltar” a um corpo, como se seu novo corpo, que fez algo tão mágico, não fosse bom o suficiente. Se isso não é opressivo, não sei que palavra usar.

 

Por fim, deixo dois recados:

 

Para as mamães, apropriem-se dessa força que vem do corpo feminino, capaz de gerar e parir uma vida. O corpo de vocês é incrível, e vocês não têm obrigação nenhuma de voltar a corpo nenhum. Sim, eu sei bem que não é fácil – e estou vivendo também a angústia de me reconhecer num corpo que não parece o meu. Mas tentem se lembrar constantemente que o corpo de vocês merece um acolhimento. Cuidem desse corpo com carinho e amor, porque o que ele fez é algo que não dá pra imitar. Se dêem um tempo para processar todas as mudanças que aconteceram e estão acontecendo. Se abracem e se acolham. Vocês são mães, mas também precisam de um colo e de um carinho, nem que seja o nosso próprio.

 

Para os profissionais de saúde, Meireles et al (2015B) colocam a importância de abordarem a imagem corporal ao acompanharem pacientes gestantes. Pressões sobre o peso a ser ganhado e terrorismo alimentar promovem mais angústias para estas mulheres, e não fazem com que elas apresentem comportamentos alimentares mais saudáveis. O trabalho de entendimento das mudanças gestacionais e de aceitação corporal podem ser mais premissores para a saúde destas gestantes.

 

 

Referências: 

* MEIRELES, Juliana Fernandes Filgueiras; NEVES, Clara Mockdece; CARVALHO, Pedro Henrique Berbert de e FERREIRA , Maria Elisa Caputo. Imagem corporal de gestantes: associaçãocom variáveis sociodemográficas,antropométricas e obstétricas. Rev Bras Ginecol Obstet. 2015; 37(7):319-24.

* MEIRELES, Juliana Fernandes Filgueiras; NEVES, Clara Mockdece; CARVALHO, Pedro Henrique Berbert de e FERREIRA, Maria Elisa Caputo. Insatisfação corporal em gestantes: uma revisão integrativa da literatura. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2015(b), vol.20, n.7, pp.2091-2103

 

 

 

 

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