Como a autocompaixão pode transformar seu relacionamento com a comida?

05/01/2018

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Como você tem se tratado ultimamente? Como são os seus diálogos internos?  Existe muita crítica na sua conversa consigo? A culpa é um sentimento constante? Você sabia que a forma como você conversa com você mesma pode interferir na sua alimentação?

 

Você costuma ser daquele tipo de pessoa que se cobra muito, tem uma autocrítica excessiva, é exigente consigo desde as coisas mais complexas do dia a dia até as mais simples como se alimentar? E quando você faz uma refeição que não estava planejada ou acaba comendo algo mais calórico ou gorduroso que estava justamente tentando evitar: a culpa, o julgamento e a cobrança surgem em alto e bom tom na sua cabeça? Saiba que pensamentos e sentimentos desse tipo podem interferir negativamente na sua relação com a comida.

 

 

 A principal consequência é que a culpa diminui a sua autoconfiança e a capacidade de fazer escolhas alimentares de forma intuitiva, pois a classificação dos alimentos em “permitidos” e “proibidos” fica cada vez mais forte, possivelmente resultando em comportamentos de “tudo ou nada” diante da comida (o comportamento 8 ou 80: ou fazer dieta restritiva ou comer de tudo, em excesso, o tempo todo). Além do julgamento e da cobrança, que contribuem para manter seus níveis de exigência e autocrítica lá em cima, buscando sempre a perfeição.

 

E se diante dessas situações de sofrimento, culpa, erros, fracassos e sentimentos de inadequação, você se tratar com mais bondade, tentando ser mais compreensivo, flexível e gentil com você mesmo? Evitando a autocrítica severa e estando atento aos seus pensamentos e sentimentos (sendo mindful)? Saiba que isso é autocompaixão (Neff, 2003a, 2003b)! Você pratica? 

 

Quando vivemos com autocompaixão passamos a compreender que as vivências negativas (erros, fracassos, inadequações e dor) fazem parte da vida de todos nós, integrando a experiência humana. Além disso, agimos com mais bondade e serenidade em relação a nós mesmos. Não sendo tão duros, diminuindo o nível de exigência e autocrítica conosco. Devemos ter consciência dos sentimentos e pensamentos nessas situações ruins, mas não se deixar absorver e ao mesmo tempo não negar a sua existência. Ou seja, alcançar um equilíbrio que não permita que sejamos tomados por todo o sofrimento, nem sobrecarregados com preocupações e angústias (Souza & Hutz, 2016).

 

Por exemplo, vamos supor que você esteja comprometido a comer sem usar o celular ou ver tevê pelo menos uma vez ao dia. Porém, nas últimas duas semanas você não conseguiu praticar nenhuma vez. O que você faz:

 

- Opção 1: se critica de forma dura, se cobra, pensa que não tem força de vontade para incluir algo aparentemente tão simples na sua rotina, fica com raiva de você mesmo e já desiste?

 

Ou

 

- Opção 2: você tenta entender o que tem acontecido nesses dias, procura encontrar os motivos que te levaram a deixar essa atividade de lado, acolhe suas razões gentilmente e se reprograma para tentar novamente?

 

 

Quando nos punimos ou nos culpamos por determinada situação, acabamos perdendo essa incrível oportunidade de aprendizado. Por outro lado, quando seguimos a opção 2, podemos realmente começar a nos conhecer, e a aprendermos com as nossas dificuldades, tendo assim possibilidades de mudança.

 

Ou seja, ao invés de irmos pelo caminho da opção 1, já trazendo os discursos como “realmente, eu não faço nada direito, nem consegui almoçar sem mexer no celular...” (que aprendizado eu tiro disso aqui?), que tal irmos pelo caminho da opção 2, buscando questionamentos como “realmente, é muito difícil para mim ficar sem o celular na hora do almoço? Por que será? Tenho algo muito importante para resolver neste momento? Me sinto sozinha durante o comer? Fico ansiosa ao comer apenas olhando pra comida?”. Perceba que seguindo por esta linha de questionamentos podemos enfim aprender sobre nós mesmos e, então, podemos mudar! 

 

Os outros e nós mesmos esperamos que sejamos sempre perfeitos e façamos tudo de forma impecável, com facilidade  e sem esforço. Porém, devemos pegar leve nas cobranças e apreciar a beleza de nossas falhas e imperfeições; precisamos ser mais amorosos e receptivos com nós mesmos, precisamos conversar conosco da mesma maneira com que conversamos com alguém que amamos. Pois esta é a nossa natureza: ser imperfeito (Brené Brown, 2013).

 

Pesquisas indicam a importância da autocompaixão para comportamentos saudáveis na alimentação e nos esportes. Há estudos evidenciando associação entre menor autocompaixão e maior preocupação e, logo, maior ansiedade, bem como depressão, com relação ao comer e à imagem corporal. A preocupação com a forma física, a magreza e o peso têm levado mulheres a adotarem hábitos alimentares não-saudáveis (Souza & Hutz, 2016).

 

Além disso,, estudos com mulheres já mostram que a incorporação da autocompaixão na vida diária pode trazer menores preocupações com o peso, com o corpo e também menos culpa ao comer (Liss e Erchull, 2015). Além de uma forma de compensar a tendência à desvalorização da própria imagem (Souza & Hutz, 2016). Por isso, pratique a autocompaixão sempre, pois quanto mais você pratica, melhor você fica!    

 

 

Referências:

- Brené Brown A Coragem de ser imperfeito. Editora Sextante, 2013.

- Liss, M. & Erchull, M. (2015). Not hating what you see: self-compassion may protect against negative mental health variables connected to self-objectification in college women. Body Image, 14, 5-12. http://dx.doi.org/10.1016/j.bodyim.2015.02.006

- Neff, K. (2003a). Self-compassion: an alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2, 85-101. http://dx.doi.org/10.1080/15298860390129863

- Neff, K. (2003b). The development and validation of a scale to measure self-compassion. Self and Identity, 2, 223-250. http://dx.doi.org/10.1080/15298860390209035

- Schoenefeld, S. & Webb, J. (2013). Self-compassion and intuitive eating in college women: examining the contributions of distress tolerance and body image acceptance and action. Eating Behaviors, 14(4), 493-496. http://dx.doi.org/10.1016/j.eatbeh.2013.09.001

- Souza, L. K. de & Hutz, C. S. A autocompaixão em mulheres e relações com autoestima, autoeficácia e aspectos sociodemográficos. Psico (Porto Alegre), 2016; 47(2), 89-98.

- Wasylkiw, L., MacKinnon, A., & MacLellan, A. (2012). Exploring the link between self-compassion and body image in university women. Body Image, 9(2), 236-245. http://dx.doi.org/10.1016/j.bodyim.2012.01.007

 

 

 

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