Alimentação Consciente e Intuitiva e Diabetes Mellitus podem andar juntos?

20/10/2017

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Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de diabetes uma das primeiras coisas que ela ganha é uma listinha de alimentos proibidos e alimentos permitidos, não é mesmo?

 

E, claro, não há dúvidas que a orientação nutricional é imprescindível e deve servir como um guia para as escolhas alimentares. Todo paciente diabético ou com qualquer outra patologia em que a alimentação é fundamental para o controle deve receber orientação nutricional individualizada.

 

Mas receber este diagnóstico nem sempre é fácil, pois existem muitos estigmas sobre o DM. Por isso, diabéticos comumente não contam sobre o diagnóstico para seus familiares e amigos próximos o que dificulta a adesão à “alimentação diabética”, principalmente em ambientes públicos (WILLIG, 2014).

 

Willig et al (2014) mostrou que a não adesão ao tratamento nutricional é uma das principais fontes de estresse e sentimento de culpa para mulheres diabéticas tipo 2, o que aumentou a fome emocional, o comer reativo e, consequentemente, o níveis de glicose no sangue. Outro estudo, este realizado com adolescentes portadores de DM tipo 1 (WHEELER, 2016) mostrou que os adolescentes que praticavam hábitos alimentares impulsionados pela emoção (comer emocional) tinham pior controle glicêmico.

 

A percepção diminuída das sensações de fome e saciedade e a frustração por não gostar dos “alimentos permitidos” são mostrados nos estudos de Willig (2014) e Wheeler (2016) como fatores que dificultam a adesão à conduta nutricional. Fica assim bastante evidente que orientações nutricionais que focam em restrição alimentar não são eficientes a longo prazo para controle dos níveis de glicemia (WILLIG, 2014; WHEELER, 2016).

 

Orientações nutricionais tradicionais que focam nos alimentos “proibidos” e geralmente causam o efeito contrario ao esperado. Restrições impostas por profissionais de saúde ou auto-impostas causam hipervalorização ou desejo aumentado pelo alimento dito “proibido”, e desvalorização ou desinteresse pelo “permitido”. Ou seja, você acaba tendo muita vontade de comer o alimento “proibido” (o açúcar), e, em algum momento, quando se permite comer o “proibido”, acaba exagerando (efeito chamado desinibição do controle cognitivo – o famoso “já que eu já comi um, vou comer mais tantos e amanhã eu me controlo”). Essa desinibição pode resultar em um comer exagerado ou, até mesmo, em episódios de compulsão alimentar (saiba mais aqui), seguidos de sentimentos como culpa e frustração (BERNARDI, 2005).

 

 

Segundo Alvarenga, o Diabetes Mellitus (DM) é a situação clínica com mais resultados positivos quando trabalha-se a mudança de comportamento (ALVARENGA, 2015). A abordagem ACI (Alimentação Consciente e Intuitiva) foca na educação e na mudança de comportamento, por isso se diferencia da abordagem tradicional e é fundamental para desenvolver resultados positivos e duradouros.

 

Utilizar-se, então, desta abordagem diminuindo as distrações no momento da refeição, respeitando e respondendo aos sinais de fome e saciedade, permitindo-se comer sem categorizar alimentos como “proibidos” e “permitidos”, evitando usar a comida para lidar com as emoções e reconquistando a confiança na sabedoria interna mostra-se eficaz no controle de glicemia de pacientes diabéticos (WHEELER, 2016).

 

Além disso, comer intuitivamente e com atenção plena favorece a percepção de sensações corporais importantes para o controle glicêmico, como os estados e hiperglicemia e hipoglicemia (ALVARENGA, 2015). Por exemplo, se o alimento lhe causa um pico de glicemia, provavelmente você sentirá dificuldade de concentração, queda no nível de energia e, até mesmo, mudanças de humor. Perceber o que o alimento o faz sentir após comê-lo requer conexão e confiança nos sinais internos.

 

O segredo para administrar sua DM está em reencontrar sua capacidade inata de nutri-se e utilizar-se de suas pistas internas como guia! Ter um relacionamento saudável com a comida e responder aos sinais do seu corpo com respeito é tão importante quanto manter níveis de glicose dentro da faixa esperada!

 

Então, respondendo à nossa questão inicial: Sim! Alimentação Consciente e Intuitiva e Diabetes Mellitus podem e devem andar juntas!

 

 

Referências Bibliográficas

ALVARENGA, M, et al. Nutrição Comportamental. Barueri, São Paulo, Manoela, 2015.

BERNARDI F, et al. Comportamento de restrição alimentar e obesidade. Rev. Nutr., Campinas, 18(1):85-93, jan./fev., 2005

WHEELER BJ, et al. Intuitive eating is associated with glycaemic control in adolescents with type 1 diabetes mellitus. Appetite 96 (2016), 160-165. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0195666315300271?via%3Dihub>. Acesso em 01/09/2017.

WILLIG AL, et al. Intuitive eating practices among African-American women living with type 2 diabetes: a qualitative study. J. Acad Nutr Diet. 2014 Jun;114(6):889-96. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24699138>. Acesso em 01/09/2017.

 

 

 

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