Ortorexia nervosa: quando o saudável vira doença

13/09/2017

Somos considerados a “geração saúde”. Sabemos tudo sobre as dietas da moda, produtos milagrosos e alimentos que “fazem mal”. Existem aqueles que causam câncer, infarto, Alzheimer. Têm os inflamatórios, os tóxicos, os que engordam. Além das substâncias que são responsáveis por todos os males da humanidade (vide o glúten, por exemplo). Os produtos que prometem “limpar”, “desintoxicar” e “fazer uma faxina” no seu organismo enchem as prateleiras das lojas de produtos naturais. São sucos detox, cápsulas de fibras, comida “pura”, “limpa” e por aí vai. Mas será que estamos realmente vivendo de forma saudável ao seguir todas as regras da alimentação “perfeita”? As hashtags #limpo, #detox, #jejum, #eatclean, #glutenfree, são cada vez mais utilizadas nas redes sociais, enquanto colocar açúcar em um bolo de aniversário parece ser altamente letal. Mas onde termina a preocupação com a saúde e começa a patologia? 

 

 

Acredito, verdadeiramente, que isso pode acabar nos levando à construção de uma relação conturbada com a comida, cheia de medo, culpa, privação e insatisfação. Enquanto comportamentos alimentares de restrição quantitativa (dietas de baixa caloria para perda de peso) encorajam o desenvolvimento de transtornos alimentares como anorexia e bulimia, esta obsessão por comer “certo” pode acionar gatilhos para outra condição, ainda pouco conhecida, denominada Ortorexia Nervosa. O conceito ainda não foi classificado como um transtorno alimentar, porém já sabemos que se trata de um comportamento alimentar disfuncional, que compreende aqueles indivíduos que buscam uma alimentação saudável de forma tão obsessiva, que são capazes de adotar medidas extremas para manter a pureza do organismo.


A vida das pessoas que sofrem com a ortorexia passa a girar em torno da comida a ponto de a alimentação definir o seu valor pessoal. A necessidade, quase que religiosa, de ter uma alimentação “correta” e “limpa” faz com que a vida se resuma a uma minuciosa e obsessiva análise de rótulos de produtos alimentares. Até mesmo os utensílios utilizados, a forma como os alimentos são lavados, cortados e preparados podem gerar angústia entre os ortoréxicos. Assim, expressões como “que seu remédio seja seu alimento e que seu alimento seja seu remédio” e “você é o que você come” são levadas a um ponto extremo e doentio, onde o alimento deixa de ser “comida” e passa a ser visto como um amontoado de nutrientes, compostos nutricionais, toxinas ou impurezas. 
 
Diferente da anorexia, a ortorexia promove uma restrição qualitativa de alimentos, onde a lista do que é permitido vai ficando cada vez menor. Este exagero preventivo começa com a retirada do açúcar ou do excesso de gordura, até que a maioria dos alimentos se torne impura, pois podem conter glúten, lactose, corantes, conservantes, agrotóxicos, pesticidas... O que acaba levando à exclusão de grupos alimentares inteiros como carnes, laticínios, gorduras ou carboidratos, podendo causar deficiência severa de nutrientes. Enquanto o anoréxico nunca se vê magro o suficiente, o ortoréxico nunca se sente puro o suficiente e quando a prioridade de vida passa a ser o planejamento do cardápio, quando se começa a evitar relacionamentos e lugares que não lhe garantem o total controle sobre a forma de preparo e a procedência da comida, o distúrbio começa a ficar mais evidente.

 

O perigo é que a maioria dessas pessoas não procura ajuda, pois acredita estar fazendo a escolha certa e que o controle sobre o que se come pode trazer inúmeras vantagens, e mesmo quando procura, acaba se tornando bastante difícil tratá-las. Em uma revisão publicada em 2015 por pesquisadoras da Bates College, nos Estados Unidos, a ortorexia é definida como “uma doença disfarçada de virtude”. As pessoas estão escondendo questões importantes, de comportamento alimentar conturbado, atrás da máscara do estilo de vida saudável. 

 

Para tratar a ortorexia é importante uma equipe multidisciplinar com médicos, nutricionistas e psicólogos. Juntos, esses profissionais ajudam a identificar a origem da preocupação extrema com a alimentação e ajudam os pacientes a construir uma relação mais equilibrada com a comida, na qual eles reaprendem a comer de tudo, entendendo que é emocionalmente, culturalmente e socialmente saudável que tanto a salada quanto o bolo de aniversário façam parte da nossa alimentação. 

 

 

 

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