Alimentação Consciente e Intuitiva (ACI) não é uma nova dieta


Pensando sobre comer, pensamos em dieta, e automaticamente em “o que comer”. O ato de alimentar-se passou por um processo de racionalização que lhe deu um caráter dietoterápico e restritivo.

Pesquisadores de diversas áreas, inclusive da Nutrição, vêm discutindo diferentes abordagens, mais holísticas, livres de discursos moralistas ou limitadores sobre o processo saúde – doença – corpo. O que se pretende é encontrar um ponto de equilíbrio.

O que se tem sentindo falta, principalmente no âmbito da Nutrição, é o desenvolvimento de pesquisas que testem diferentes abordagens no sentindo de apoiar as pessoas em busca de uma vida mais saudável. Abordagens que promovem uma sintonia entre a comida, a mente e o corpo vêm sendo testadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a abordagem da Alimentação Consciente já vem sendo estudada, com objetivo de melhorar a relação das pessoas com a comida, principalmente daquelas que se sentem oprimidos pela comida e pela “mentalidade da dieta” (TORRES, 2016).

A definição de Nutrição, em seu conceito mais simples, foca no aspecto fisiológico/bioquímico do alimento; se consideramos a Nutrição apenas como “uma ciência que estuda todos os processos por meios dos quais o organismo recebe, utiliza e elimina os nutrientes ingeridos”, limitamos o seu amplo sentido. Dentro da visão comportamental, a Nutrição é mais complexa, não sendo considerada uma resposta influenciada apenas por uma “matemática”, mas também por uma biologia; leva-se em consideração que os aspectos que envolvem a relação do indivíduo com a comida vão desde a seleção/escolha dos alimentos, passando por sua história de vida, pelas experiências com sua própria saúde (e/ou doença) - e também com a própria comida, seus pensamentos, sentimentos e emoções.

A Alimentação Consciente e Intuitiva (ACI), linha bastante estudada aqui no Portal Sentidos do Comer, está ancorada na Nutrição Comportamental, nomenclatura que descreve esse novo olhar da Nutrição. A abordagem comportamental da Nutrição entende que comer possui uma série de significados; “sim, comida têm SIGNIFICADOS, enquanto que nutrientes possuem DEFINIÇÃO” (ALVARENGA, et al, 2015).

A ACI é uma abordagem cientificamente comprovada, que possui um olhar ampliado sobre a relação do indivíduo com a comida e o próprio corpo, pois considera os aspectos fisiológicos, sociais e emocionais da alimentação. Defende, ainda, que ter saúde (e ser saudável) não está diretamente ligado a um determinado peso ou tamanho de corpo, e sim a comportamentos saudáveis (ALVARENGA, et al, 2015).

O que a ACI busca é melhorar o relacionamento das pessoas com a comida e com o próprio corpo, buscando entender qual o significado que comer e querer emagrecer possuem, e qual o impacto disso em suas vidas. A ACI propõe que você tenha uma relação tranquila e de paz com a comida, que você tenha uma alimentação FLEXÍVEL, livre de proibições ou regras rígidas, utilizando-se de princípios como a permissão incondicional de comer (falamos sobre ela aqui). Dessa forma, busca-se modificar o comportamento disfuncional com a comida e/ou com o corpo. A mudança de comportamento se dá pela modificação da relação das pessoas com a comida.

Além disso, o comer consciente, que deriva do “mindful”, cujo significado é “atenção plena”, convida a estarmos presente no aqui e agora, com atitude de abertura e curiosidade, sem julgamentos sobre a experiência do momento presente. Estar consciente é entender que somente posso classificar uma experiência, após tê-la vivenciado. (GIRARD; FEIX, 2016). Os estudos sobre alimentação consciente são adaptados do Mindfulness e existem evidências de que essa prática pode contribuir para um melhor relacionamento com a comida. Pesquisadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, desenvolveram um programa de 8 semanas que envolve a alimentação consciente (Mindfulness-Based Eating Awareness Training – MB-EAT). Esse programa tem sido bem aceito na comunidade científica por seus resultados positivos na promoção da redução do peso e na manutenção do peso perdido, quando desejado. O programa não tem foco em contagem de calorias ou em tabelas de alimentos; não proíbe o consumo de qualquer tipo de alimento; portanto, o programa NÃO é baseado em uma DIETA. Ele trabalha no sentido de desenvolver a atenção sem julgamento às sensações físicas e emocionais despertadas durante o ato de comer ou em algum contexto relacionado à comida. O programa utiliza exercícios que ajudam os participantes a aplicarem a atenção plena às decisões do dia a dia, especialmente as relacionadas ao comer. São aplicados exercícios, tais como: comer uma uva-passa devagar, explorando a experiência do momento presente, observando (sem julgamento ou críticas) aparência, textura, aroma e sabor); consumir alimentos considerados até então como “proibidos”, de forma lenta e com atenção para que sentimentos e sensações sejam avaliadas e compreendidas; observar os efeitos da fome e saciedade, frente ao consumo de água ou alimentos. Todas essas práticas podem permitir os indivíduos tomarem suas próprias decisões sobre o quê e quanto comer, se tornando autônomos frente as suas escolhas alimentares. Assim, se estimula a reflexão sobre as sensações corporais e emocionais durante o ato de se alimentar, reconhecendo que não há forma certa ou errada de comer, aceitando que cada experiência alimentar é única (TORRES, 2016).

O olhar dessa abordagem não está direcionado apenas ao peso corporal, pois se entende que peso não é comportamento, e sim, uma consequência de diversos fatores. Nesse contexto, a ACI não possui como proposta um atendimento direcionado ao emagrecimento. Conforme já mencionamos anteriormente em nossos textos (aqui e aqui), o peso corporal é uma CONSEQUÊNCIA de vários fatores (incluindo os comportamentais).

Porém, as evidências de que a ACI interfere no peso corporal podem fazer com que, muitas vezes, essa abordagem seja vista/tratada como uma nova dieta. "Agora que eu aprendi a ouvir minha fome e minha saciedade, a identificar meu comer emocional, então eu posso comer de maneira “perfeita”? Nun