Alimentação Consciente e Intuitiva (ACI) não é uma nova dieta

12/05/2017

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Pensando sobre comer, pensamos em dieta, e automaticamente em “o que comer”. O ato de alimentar-se passou por um processo de racionalização que lhe deu um caráter dietoterápico e restritivo.

 

Pesquisadores de diversas áreas, inclusive da Nutrição, vêm discutindo diferentes abordagens, mais holísticas, livres de discursos moralistas ou limitadores sobre o processo saúde – doença – corpo. O que se pretende é encontrar um ponto de equilíbrio.

O que se tem sentindo falta, principalmente no âmbito da Nutrição, é o desenvolvimento de pesquisas que testem diferentes abordagens no sentindo de apoiar as pessoas em busca de uma vida mais saudável. Abordagens que promovem uma sintonia entre a comida, a mente e o corpo vêm sendo testadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a abordagem da Alimentação Consciente já vem sendo estudada, com objetivo de melhorar a relação das pessoas com a comida, principalmente daquelas que se sentem oprimidos pela comida e pela “mentalidade da dieta” (TORRES, 2016).

 

 A definição de Nutrição, em seu conceito mais simples, foca no aspecto fisiológico/bioquímico do alimento; se consideramos a Nutrição apenas como “uma ciência que estuda todos os processos por meios dos quais o organismo recebe, utiliza e elimina os nutrientes ingeridos”, limitamos o seu amplo sentido.  Dentro da visão comportamental, a Nutrição é mais complexa, não sendo considerada uma resposta influenciada apenas por uma “matemática”, mas também por uma biologia; leva-se em consideração que os aspectos que envolvem a relação do indivíduo com a comida vão desde a seleção/escolha dos alimentos, passando por sua história de vida, pelas experiências com sua própria saúde (e/ou doença) - e também com a própria comida, seus pensamentos, sentimentos e emoções.

 

Alimentação Consciente e Intuitiva (ACI), linha bastante estudada aqui no Portal Sentidos do Comer, está ancorada na Nutrição Comportamental, nomenclatura que descreve esse novo olhar da Nutrição. A abordagem comportamental da Nutrição entende que comer possui uma série de significados; “sim, comida têm SIGNIFICADOS, enquanto que nutrientes possuem DEFINIÇÃO” (ALVARENGA, et al, 2015).

 

A ACI é uma abordagem cientificamente comprovada, que possui um olhar ampliado sobre a relação do indivíduo com a comida e o próprio corpo, pois considera os aspectos fisiológicos, sociais e emocionais da alimentação.  Defende, ainda, que ter saúde (e ser saudável) não está diretamente ligado a um determinado peso ou tamanho de corpo, e sim a comportamentos saudáveis (ALVARENGA, et al, 2015). 

 

 

O que a ACI busca é melhorar o relacionamento das pessoas com a comida e com o próprio corpo, buscando entender qual o significado que comer e querer emagrecer possuem, e qual o impacto disso em suas vidas.  A ACI propõe que você tenha uma relação tranquila e de paz com a comida, que você tenha uma alimentação FLEXÍVEL, livre de proibições ou regras rígidas, utilizando-se de princípios como a permissão incondicional de comer (falamos sobre ela aqui). Dessa forma, busca-se modificar o comportamento disfuncional com a comida e/ou com o corpo.   A mudança de comportamento se dá pela modificação da relação das pessoas com a comida.

 

Além disso, o comer consciente, que deriva do “mindful”, cujo significado é “atenção plena”, convida a estarmos presente no aqui e agora, com atitude de abertura e curiosidade, sem julgamentos sobre a experiência do momento presente. Estar consciente é entender que somente posso classificar uma experiência, após tê-la vivenciado. (GIRARD; FEIX, 2016). Os estudos sobre alimentação consciente são adaptados do Mindfulness e existem evidências de que essa prática pode contribuir para um melhor relacionamento com a comida. Pesquisadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, desenvolveram um programa de 8 semanas que envolve a alimentação consciente (Mindfulness-Based Eating Awareness Training – MB-EAT). Esse programa tem sido bem aceito na comunidade científica por seus resultados positivos na promoção da redução do peso e na manutenção do peso perdido, quando desejado. O programa não tem foco em contagem de calorias ou em tabelas de alimentos; não proíbe o consumo de qualquer tipo de alimento; portanto, o programa NÃO é baseado em uma DIETA.  Ele trabalha no sentido de desenvolver a atenção sem julgamento às sensações físicas e emocionais despertadas durante o ato de comer ou em algum contexto relacionado à comida. O programa utiliza exercícios que ajudam os participantes a aplicarem a atenção plena às decisões do dia a dia, especialmente as relacionadas ao comer. São aplicados exercícios, tais como:  comer uma uva-passa devagar, explorando a experiência do momento presente, observando (sem julgamento ou críticas) aparência, textura, aroma e sabor); consumir alimentos considerados até então como “proibidos”, de forma lenta e com atenção para que sentimentos e sensações sejam avaliadas e compreendidas; observar os efeitos da fome e saciedade, frente ao consumo de água ou alimentos.  Todas essas práticas podem permitir os indivíduos tomarem suas próprias decisões sobre o quê e quanto comer, se tornando autônomos frente as suas escolhas alimentares. Assim, se estimula a reflexão sobre as sensações corporais e emocionais durante o ato de se alimentar, reconhecendo que não há forma certa ou errada de comer, aceitando que cada experiência alimentar é única (TORRES, 2016).

 

O olhar dessa abordagem não está direcionado apenas ao peso corporal, pois se entende que peso não é comportamento, e sim, uma consequência de diversos fatores. Nesse contexto, a ACI não possui como proposta um atendimento direcionado ao emagrecimento. Conforme já mencionamos anteriormente em nossos textos (aqui e aqui), o peso corporal é uma CONSEQUÊNCIA de vários fatores (incluindo os comportamentais).

 

Porém, as evidências de que a ACI interfere no peso corporal podem fazer com que, muitas vezes, essa abordagem seja vista/tratada como uma nova dieta. "Agora que eu aprendi a ouvir minha fome e minha saciedade, a identificar meu comer emocional, então eu posso comer de maneira “perfeita”? Nunca mais vou cometer exageros ou comer emocionalmente? Vou seguir uma linha de ideias por um período determinado, até conseguir perder aqueles “quilinhos”?"

 

O pensamento de dieta, segundo as autoras do livro Intuitive Eating, é um pensamento linear: tudo o que você consegue pensar é em atingir uma meta (que normalmente é a perda de peso); o que importa é o resultado final, como se o caminho fosse uma linha reta, sem desvios. A ACI propõe que se substitua esse pensamento linear por um pensamento que considera todo o PROCESSO, ou seja, que se valorize o aprendizado em cada momento/situação.

 

Abaixo estão alguns exemplos de raciocínios/pensamentos incentivados na ACI, trazidos no livro Intuitive Eating :

- “Eu comi um pouco mais do que meu corpo pediu no restaurante hoje. Mas eu aprendi a me dar permissão para comer sobremesa, tirando a urgência de comer doces mais tarde. Normalmente eu teria um episódio compulsivo ao chegar em casa, sozinho”;

 - “Foi uma semana difícil, mas eu aprendi coisas sobre mim que podem me ajudar a fazer mudanças no futuro”.

 

Como tudo em nossa vida, a alimentação também passa por altos e baixos: em um momento estou conectado com meu corpo/com minhas percepções, e vou conseguir ouvir o que ele está me pedindo e respeitar; em outros momentos, por alguma razão, isso não acontecerá, e também está tudo bem. Não existe certo ou errado, existe autoconhecimento e aprendizado. E saber lidar consigo mesmo (a) faz toda a diferença.  É um aprendizado por toda a vida.

 

Lembre-se: se você transformar a ACI num conjunto de regras inflexíveis estará transformando-a em outra dieta; se virar mais uma dieta, existem grandes chances de não dar certo, e de você se culpar e se frustrar.

 

Referências:

ALVARENGA, Marle et al. NUTRIÇÃO COMPORTAMENTAL. Barueri, São Paulo.Manole, 2015.

GIRARD, Tanzie V. Gonçalves;  FEIX, Leandro da Fonte. MINDFULNESS: CONCEPÇÕES TEÓRICAS E APLICAÇÕES CLÍNICAS . Revista das Ciências da Saúde do Oeste Baiano - Higia 2016. Disponível em:  http://www.fasb.edu.br/revista/index.php/higia/article/view/132/135. Acesso em 01 de maio de 2017.

TORRES, Andreia Araujo Lima. Ponto de equilíbrio entre a Ciência da Nutrição e “Fat Studies”. Demetra: alimentação, nutrição & saúde, 2016. Disponível em: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/demetra/article/view/25885/19449#.WQeEfnyvIU. Acesso em  01 de Maio.

 

 

 

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