Terrorismo Nutricional: cuidado com as "comprovações científicas"

23/02/2017

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Vivemos hoje em um momento que eu classificara como “delicado” no que e refere às informações científicas sobre comer e sobre comida. Todo dia uma surpresinha nova, um estudo novo, o alimento da vez que causa câncer, que cura o câncer, que faz maravilhas por você....

 

É inegável que o avanço dos estudos científicos é essencial ao desenvolvimento de medicamentos, estratégias de tratamentos e direcionamento para orientações de condutas voltadas à saúde. Mas vou apenas te dar um exemplo do quanto as conclusões das pesquisas podem ser deturpadas até que você, consumidor final, receba a notícia.

 

 

Vamos a um exemplo hipotético. A intenção não é dar ideia errada para ninguém, uma vez que não se trata de um exemplo verdadeiro, certo?

 

Um estudo conduzido com ratos comprovou que o uso de chá verde em quantidades “x” ao longo de 3 semanas levou à redução do percentual de gordura corporal dos animais em “x” por cento, sugerindo ser uma boa alternativa complementar aos tratamentos de redução do peso.

 

Como esta informação é veiculada na mídia para pessoas leigas?

 

“CHÁ VERDE EMAGRECE!!!” E no dia seguinte o chá verde está esgotado nas lojas de produtos naturais...

 

E então eu te pergunto: Você é rato? Você terá a sua alimentação controlada por 3 semanas para testar o efeito do chá verde na sua composição corporal, assim como fizeram com os animais? Você faz ideia se existe alguma contraindicação para o uso do chá verde antes de consumir? O seu organismo toleraria as quantidades de chá verde testadas nos ratos? Ou ainda, o qual seria a dose adequada para que os mesmos efeitos do chá verde fossem observados em humanos? E o que acontece depois das 3 semanas de uso do chá verde? E por aí vai...

 

Perceba o quanto as informações são distorcidas e o quanto não somos treinados (pelo menos não a maioria da população) a duvidar destas informações veiculadas de forma sensacionalista. Basta constar lá a expressão “pesquisas confirmam” ou “estudos comprovam” para que todos acreditem.

 

Exemplos como este podem ser extrapolados para tudo o que é informação sobre alimentos, suplementos, uma nova dieta e etc. A maneira como essas informações chegam até você revela o quanto os interesses das corporações operam no sentido de te ATERRORIZAR ou te prometer verdadeiros MILAGRES para que você consuma. E elas não se importam com a sua saúde, ok? (Lucro, lucro, lucro é o que pisca em neon reluzente nas mentes dos grandes empresários da indústria do emagrecimento e dos alimentos funcionais).

 

Além deste cenário, podemos ainda nos deparar com a seguinte situação, que é até o mais comum de acontecer: sobre UMA ÚNICA QUESTÃO diversos estudos apontam para diferentes e contraditórias sugestões de conclusões (Nota importante: em estudos realmente sérios, nenhum autor tem coragem e a ousadia de posicionar sua conclusão como uma certeza. Todo cientista ético sabe que a ciência é dinâmica e que novos estudos sempre virão para questionar, rever, refutar seus achados. Em suma, ter certeza de algo é somente para tolos).

 

Vamos novamente ao exemplo para facilitar a compreensão (e dessa vez o exemplo não é hipotético não. É real mesmo):

 

Sobre os efeitos do Jejum Intermitente....

 

Alguns estudos comprovam a sua eficácia na redução dos níveis de insulina, de glicemia de jejum, nos parâmetros de lipídeos séricos, além do emagrecimento (ver referências).

 

Outros estudos apontam para a conclusão de que não há evidências científicas que sustentem que fazer jejum intermitente seja realmente benéfico à saúde, uma vez que esta prática pode levar os indivíduos a desenvolverem déficits nutricionais graves, transtornos psicológicos, emocionais, sociais e, apesar dos indícios de que esta prática seja benéfica para os parâmetros bioquímicos, os prováveis benefícios não superam os prejuízos.

 

E agora? O que fazer? Em qual conclusão você deve acreditar?

 

 

 

Por isso, porque eu sei que você fica super perdido(a) no meio deste mar de informações foi que criamos um guia prático e rápido anti informações terroristas para que você se proteja das promessas e ameaças. Mas antes que iniciemos o passo a passo do nosso guia, eu gostaria de pedir que você, a partir de hoje, se comprometesse a desenvolver na sua vida o PENSAMENTO SOCRÁTICO.

 

“Mas que diabos é isso?” Eu sei que você vai me perguntar...

 

 

Sócrates foi um filósofo grego do século V a.C. que ensinou aos seus discípulos (especialmente Platão) a desenvolverem o pensamento por si mesmos, sem influências externas. O método socrático baseia-se no uso de perguntas simples e quase ingênuas que têm por objetivo incentivar reflexões para conclusões autônomas.

 

Ou seja, DUVIDE SEMPRE! Duvide inclusive disso tudo que eu te disser aqui e pesquise, questione se eu realmente estou falando a verdade. Ou melhor, busque a SUA verdade, fazendo-se perguntas e buscando as respostas por si só, conforme o pensamento socrático.

 

 

Dito isto, vamos ao nosso GUIA Antiterrorismo Alimentar:

 

Ao ouvir ou ler a expressão “comprovado cientificamente” faça-se imediatamente as seguintes perguntas:

 

1. Oi? Do que é mesmo que esta pessoa está falando? Deixa eu entender melhor... (e procure a referência do tal estudo citado na internet mesmo. Este estudo realmente existe? Peça ajuda e maiores informações de referências a quem estiver tentando lhe persuadir. É um excelente exercício para saber se a pessoa não está usando uma estratégia barata e mentirosa para lhe convencer). Você pode usar essa plataforma aqui para fazer sua pesquisa de estudos científicos (somente na língua inglesa).

 

2. QUANDO este estudo científico ocorreu? Se foi em 1945, 1967, 1974 é bem provável que ele já não tenha mais validade científica e você vai perder o seu precioso tempinho acreditando em caduquices.

 

3. ONDE este estudo ocorreu? Sim, isso importa simmmm!!! Especialmente no que diz respeito à alimentação. A genética, a sazonalidade e a cultura alimentar vão influenciar consideravelmente na aplicabilidade deste resultado à sua realidade. Ou você acha que a sua genética e composição corporal é a mesma dos esquimós, dos japoneses? A cultura alimentar destes povos e a disponibilidade dos alimentos nessas regiões é bem diferente da nossa. Questione!

 

4. COM QUEM este estudo foi conduzido? Humanos? Cobaias? Se foi com animais, gostaria de te lembrar que há uma distância razoavelmente boa entre o que acontece com as cobaias de laboratório e você, certo? ;)

 

5. Em QUANTAS PESSOAS este experimento foi testado? Você vai realmente acreditar em um estudo que foi realizado com meia dúzia de pessoas? Qual a chance de toda a população mundial não ser representada em 6 pessoas? Enorme, não? Confie mais em estudos conduzidos em grandes populações, de preferência em diversas regiões do mundo. A chance dos resultados de pesquisas populacionais serem mais corretos e aplicáveis em um número maior de pessoas é consideravelmente maior.

 

6. Não vou focar aqui em tipos de estudos para não deixar este assunto ainda mais complexo, mas por fim, gostaria que você se perguntasse se os BENEFÍCIOS desta comprovação científica realmente superam os PREJUÍZOS (custos do produto, privações sociais, mudança na sua cultura alimentar, restrições alimentares severas, repercussões psicológicas, emocionais)? Enfim, vale mesmo a pena investir nesta “novidade”?

 

Faça este exercício, vai! Eu te garanto que você vai enxergar a mídia e este mundo com novos olhos.

 

 

Referências bibliográficas:

Harvie M, Howell A. Potential Benefits and Harms of Intermittent Energy Restriction

and Intermittent Fasting Amongst Obese, Overweight and Normal Weight Subjects-A

Narrative Review of Human and Animal Evidence. Behav Sci (Basel). 2017 Jan 19;7(1).

pii: E4. doi: 10.3390/bs7010004.

 

Antoni R, Johnston KL, Collins AL, Robertson MD. Effects of intermittent fasting on

glucose and lipid metabolism. Proc Nutr Soc. 2017 Jan 16:1-8. doi:

10.1017/S0029665116002986

 

 

 

 

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