A gestação e o não reconhecimento do corpo


* Um relato pessoal da nutricionista Nathália Petry

Constantemente, ao atender mães em meu consultório, me deparo com a angústia de querer “voltar ao seu corpo”. E, mais do que nunca, eu entendo o que vocês querem dizer, e por isso vim aqui compartilhar algumas reflexões que tenho tido na gestação.

Hoje alguém me deu feliz dia das mães, e aquilo pareceu ainda fora de lugar. Não me sinto ainda mãe, embora eu já seja. Não sei quando a gente sente isso, mas que não me sinto mais dona de mim, ah, isso eu já sinto. O simples fato de ter uma dor de cabeça e não poder tomar um remédio me mostra que não sou mais totalmente dona desse corpo. O fato de acordar e perceber que a calça não fecha mais me mostra que o corpo agora é casa também de outra pessoa. O fato de marcas surgirem no meu corpo me mostra que meu corpo já não conta mais só a minha história.

Devido ao transtorno alimentar, meu corpo já mudou muito, mas nada se assemelha ao processo de gestar. As mudanças são velozes, diárias, e não são só suas. Seu corpo não é mais seu. Pertencem também a outra pessoa. E a verdade é que você nunca mais será a mesma.

A mídia é cruel e divulga dezenas de notícias de mulheres que pariram e logo depois “voltaram ao corpo de antes”. Segundo o estudo de Meireles et al (2015A), a insatisfação corporal de gestantes foi aumentando conforme foram ganhando o peso da gestação, refletindo como esse se torna um período conflituoso para a mulher, em que por um lado se conforta em saber que o bebê está crescendo, porém por outro lado se preocupa em "estar cada vez mais longe do padrão de beleza".

Mas, sinceramente, a verdade é que você nunca mais “volta” ao corpo de antes. Porque não tem pra onde voltar, agora é só pra frente. Porque você não é mais a mesma, e seu corpo não é mais o mesmo. Estamos em um lugar diferente agora. Seu corpo gerou uma criança, e talvez até a alimentou. Como esperar que ele volte a ser o que é antes?

Não estou querendo dizer que seu corpo não vai necessariamente se modificar novamente, que os kgs extras nunca mais serão perdidos. Mas quero dizer que é cruel submeter as mulheres, que acabaram de fazer algo maravilhoso, a uma pressão tão cruel de terem que “voltar” a um corpo, como se seu novo corpo, que fez algo tão mágico, não fosse bom o suficiente. Se isso não é opressivo, não sei que palavra usar.

Por fim, deixo dois recados:

Para as mamães, apropriem-se dessa força que vem do corpo feminino, capaz de gerar e parir uma vida. O corpo de vocês é incrível, e vocês não têm obrigação nenhuma de voltar a corpo nenhum. Sim, eu sei bem que não é fácil – e estou vivendo também a angústia de me reconhecer num corpo que não parece o meu. Mas tentem se lembrar constantemente que o corpo de vocês merece um acolhimento. Cuidem desse corpo com carinho e amor, porque o que ele fez é algo que não dá pra imitar. Se dêem um tempo para processar todas as mudanças que aconteceram e estão acontecendo. Se abracem e se acolham. Vocês são mães, mas também precisam de um colo e de um carinho, nem que seja o nosso próprio.

Para os profissionais de saúde, Meireles et al (2015B) colocam a importância de abordarem a imagem corporal ao acompanharem pacientes gestantes. Pressões sobre o peso a ser ganhado e terrorismo alimentar promovem mais angústias para estas mulheres, e não fazem com que elas apresentem comportamentos alimentares mais saudáveis. O trabalho de entendimento das mudanças gestacionais e de aceitação corporal podem ser mais premissores para a saúde destas gestantes.

Referências:

* MEIRELES, Juliana Fernandes Filgueiras; NEVES, Clara Mockdece; CARVALHO, Pedro Henrique Berbert de e FERREIRA , Maria Elisa Caputo. Imagem corporal de gestantes: associaçãocom variáveis sociodemográficas,antropométricas e obstétricas. Rev Bras Ginecol Obstet. 2015; 37(7):319-24.

* MEIRELES, Juliana Fernandes Filgueiras; NEVES, Clara Mockdece; CARVALHO, Pedro Henrique Berbert de e FERREIRA, Maria Elisa Caputo. Insatisfação corporal em gestantes: uma revisão integrativa da literatura. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2015(b), vol.20, n.7, pp.2091-2103


206 visualizações

Quer fazer parte da nossa lista no Telegram e receber conteúdo e todas novidades em primeira mão? Clique aqui!

Clique aqui e se inscreva na nossa lista exclusiva de e-mails e fique por dentro das novidades! Você também receberá o e-book "Como Começar? Um guia de quatro etapas para se tornar referência em uma Nutrição sem prescrição"

Tem dúvidas sobre nossas formações ou gostaria de nos contatar?

Entre em contato por e-mail ou WhatsApp:

* Todos os direitos reservados ao Instituto de Alimentação Consciente e Intuitiva 2019 / CNPJ: 30.569.638/0001-09