Como o levar a marmita pode estar comprometendo a nossa relação com a comida


Sabe aquele vasilhame metálico, preparado na noite anterior, recheado com comida caseira fresquinha, enrolado em um pano de prato e aquecido na “boca” do fogão ou em banho maria quando chega a hora do almoço do dia seguinte no trabalho?

Pois que a marmita ganhou uma versão repaginada e, assim como todo modismo, muito mais cara, se tornando obrigatória entre aqueles que se encheram de desejos e motivações para iniciar um projeto “vida fitness”.

E se há 5 anos, quem levava marmita para o trabalho era mal visto e taxado de “muquirana”, por querer economizar o precioso ticket refeição, esta prática que hoje vem sendo tão incentivada por muitos profissionais da saúde, que ganhou até programa na TV a cabo, exclusivamente dedicado a apresentar a rotina dos marmiteiros. Como plus, o programa ainda sugere vasilhames e combinações de alimentos a preços, digamos assim.... nada acessíveis.

Quem se alimenta de marmita passou de “bóia fria” à condição de seres dotados de uma força de vontade sobrenatural, tanto por encarar a nada fácil rotina noturna de preparos da própria comida, quanto pela capacidade de resistir às “tentações” dos aromas sedutores exalados pelos restaurantes do entorno do local de trabalho.

Mas o que é que tem de errado nisso? Você deve estar se perguntando.

Bom, aparentemente não há absolutamente nada de errado em querer economizar dinheiro e comer comida caseira. Mas antes de afirmarmos que não há nada de errado mesmo com esta prática, responda às perguntinhas a seguir:

Vamos supor que você tenha esquecido sua marmita em casa e tenha que comer no restaurante da esquina. Tá tudo certo para você? Consegue comer sem culpa?

Em situações festivas, happy hours e comemorações, você consegue aproveitar comendo o que todos estão compartilhando?

Você consegue confiar e comer tranquilo, apreciando a comida que outras pessoas preparam?

Se você respondeu sim para todos os questionamentos, ótimo! Não há problema algum nisso. Viva a sua vida comendo a sua marmita em paz.

Mas se você respondeu não para algumas perguntas, sugiro que você leia este outro texto aqui do nosso portal e reflita se isso pode estar acontecendo com você. Se sentir que precisa de ajuda especializada, busque!

O ponto central aqui não é criticar os marmiteiros de plantão. Nosso único objetivo com estas linhas é te alertar que esta prática pode estar encobrindo um problema bastante grave com o seu relacionamento com a comida. E como nutricionista que estuda o comportamento humano ouso ir além: comer de marmita pode simbolizar o reflexo da maneira como a nossa sociedade está vivendo.

Você sabia que na história da humanidade, a raça humana só passou a compartilhar

comida quando começou a verdadeiramente confiar no seu próximo e começou então a se reunir em pequenos grupos? Na luta pela sobrevivência num ambiente hostil e cercado por predadores, o homem do paleolítico só considerou a possibilidade de não competir por comida quando percebeu que se tornava menos vulnerável se se reunisse em pequenos grupos. Transcrevo abaixo um trecho do livro Comida: prazeres, gozos e transgressões, de Nascimento, A.A.B.S.:

“Comer junto significa aliar-se. Comer o pão ou provar o sal, significa irmanar-se. Comer no mesmo prato é uma afirmativa de fraternidade. O prazer de comer estimula e desdobra-se no prazer de interagir, na medida em que é instrumento de comunicação, e consequentemente, de agregação. (...) não há nada mais básico do que pertencer”.

Em outras palavras, compartilhar comida é compartilhar afeto, impressões, memórias, é perpetuar cultura. E o que uma simples marmita pode representar é o rompimento com toda essa preciosidade das relações que construímos ao longo dos milênios.

Pense nisso! E tudo bem se você continuar comendo de marmita. Continuaremos amigos <3

Referência:

NASCIMENTO, AB. Comida:prazeres, gozos e transgressões [online]. 2nd. ed. rev. and enl. Salvador: EDUFBA, 2007, 288 p. ISBN 978-85-232-0907-0.


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