Como o cozinhar pode te ajudar a transformar sua relação com a comida?


Cozinhar é algo muito íntimo do ser humano.

Ao longo da história, a mágica do fogo acontece e o ato de cozinhar nos transforma no que somos, estabelecendo a diferença entre os animais e as pessoas. De fato, em 1773, o escritor escocês James Boswell observa que “nenhum animal é um cozinheiro” e chama o Homo sapiens de “o animal que cozinha”.

E assim, cozinhar assumiu parte do trabalho de mastigar e digerir a comida e aumentou muito a oferta de alimentos que antes não estariam disponíveis para o consumo. E já que não tinham mais que passar muito tempo procurando alimentos crus e mastigando-os, os seres humanos poderiam usar seu tempo para outros propósitos (Pollan, 2014).

Além disso, o costume de cozinhar nos traz um novo fenômeno, o de comer juntos, num momento e lugar determinados. Antes, o homem saía sozinho em busca de alimentos crus e provavelmente se alimentava enquanto se deslocava. Depois da descoberta do fogo, o ato de sentarmos para fazer uma refeição em comum, olhar nos olhos uns dos outros, compartilhar a comida e nos comportar de certa maneira, serviu para que nos civilizássemos (Pollan, 2014).

Costumamos ter lembranças felizes de nossas mães ou avós na cozinha, fazendo alquimias e feitiçarias que se transformavam em pratos mágicos e comidinhas deliciosas. Como disse Pollan (2014) no livro Cozinhar: “Mesmo o prato mais banal segue uma curva de transformação, tornando-se, num passe de mágica, mais do que a mera soma de suas partes”. Não é a toa que na Grécia Antiga, a palavra para “cozinheiro” era mageiros, cuja raiz é igual à de “magia”.

Na época dos nossos avós a culinária era ensinada nas escolas e era uma atividade privativa das mulheres. Elas trabalhavam no cuidado com a casa, e o tempo dedicado ao ato de cozinhar era maior. A comida era caseira, preparada com ingredientes naturais e compartilhada com a família. Não existiam muitas regras alimentares e preocupação com a alimentação, e a intenção era simplesmente alimentar, cuidar, acolher. Não preciso nem dizer que a incidência de obesidade e doenças crônicas relacionadas à alimentação era muito menor do que nos dias de hoje...

Acredito que cozinhar é, provavelmente, a coisa mais importante para você melhorar a sua alimentação e fazer as pazes com a comida. O ato de cozinhar ajuda a comer de forma mais variada e aumenta o interesse em experimentar novos alimentos e preparações. Quando cozinhamos garantimos a redução de aditivos alimentares e diminuímos a ingestão de alimentos ultraprocessados. Mas, o mais importante é que o ato de cozinhar lhe permite concentrar sua atenção nos aromas e sabores, e estar presente no momento que a magia acontece! Criar ou reaprender a ter intimidade com os alimentos, brincar com os temperos e se divertir com as receitas pode ser uma terapia incrível de reconciliação com a comida, são atos de atenção consciente que promovem bem-estar e contribuem para a redução do estresse. Já existe muita literatura científica que confirma a ligação entre a expressão criativa e o bem-estar geral. Pode ser a pintura, fazer uma música ou preparar um almoço, as pessoas reduzem seu estresse quando têm alguma forma de dar vazão à sua criatividade (PINCUS, 2015).

Segundo Pollan, cozinhar faz com que estabeleçamos conexões, nos envolvendo em toda uma rede de relacionamentos sociais e ecológicos: com plantas e animais, com o solo, com os fazendeiros, com os micro-organismos dentro e fora dos nossos corpos e, é claro, com as pessoas que se nutrem e se deliciam com a nossa comida. Preparar uma refeição saborosa e nutritiva é uma forma de cuidar e de mostrar às pessoas que você ama o quanto elas são importantes, incluindo você mesmo. O ser humano não é feito só de matéria física, também precisa de cuidado emocional, e a comida carrega essa energia. Nada melhor do que chegar em casa e ver que alguém preparou uma refeição gostosa para você, não é mesmo? Então use e abuse da sua criatividade e experimente! Após algum tempo cozinhando, você vai sentir um bem-estar enorme por poder saborear uma comida fresca que você mesmo preparou.

O novo Guia Alimentar para a população Brasileira (2014), dedica uma parte importante de suas recomendações à valorização do ato de cozinhar, ao envolvimento de homens e mulheres, adultos e crianças nas atividades domésticas relacionadas ao preparo das refeições e recomenda:

“Desenvolva, exercite e partilhe suas habilidades culinárias, valorize o ato de preparar e cozinhar alimentos, defenda a inclusão das habilidades culinárias como parte do currículo das escolas e integre associações da sociedade civil que buscam proteger o patrimônio cultural representado pelas tradições culinárias locais. Se você tem habilidades culinárias, procure desenvolvê-las e partilhá-las, principalmente com crianças e jovens, sem distinção de gênero. Se você não tem habilidades culinárias – e isso vale para homens e mulheres – procure adquiri-las. Para isso, converse com as pessoas que sabem cozinhar, peça receitas a familiares, amigos e colegas, leia livros, consulte a internet, eventualmente faça cursos e... comece a cozinhar!”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • POLLAN, Michael. Cozinhar: uma história natural da transformação. Rio de Janeiro - Intrínseca, 2014.

  • DERAM, Sophie. O peso das dietas: emagreça de forma saudável dizendo não às dietas. São Paulo – Sensus, 2014.

  • Guia alimentar para a população brasileira/Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2 ed. – Brasília; Ministério da Saúde, 2014.

  • http://www.huffpostbrasil.com/entry/baking-for- others-psychology_us_58dd0b85e4b0e6ac7092aaf8


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